Diário da 42ª Mostra (Parte 1)

A primeira vez que vivi a Mostra intensamente foi em 2015. Comprei um pacote de 20 filmes, fiz uma agenda e fui encaixando sessões em todos os meus horários livres. Foi muito cansativo, mas uma experiência maravilhosa. Desde então não consegui acompanhar da mesma forma, até que nesse ano pude assistir a alguns filmes sensacionais.

Começo a minha contagem de filmes com Assunto de Família, filme japonês que assisti após a coletiva de imprensa da Mostra. Sabia bem pouco sobre ele e foi uma grata surpresa, logo de cara, um dos meus preferidos da maratona. Uma família de ladrões “adota” uma menina após perceber que ela não era bem cuidada pelos pais. O clima começa fofo, de cuidado um com o outro, mas aos poucos sabemos o que realmente acontece ali e o filme se torna bastante dolorido. Ele ganhou a Palma de Ouro em Cannes e é o indicado do Japão para concorrer ao Oscar.

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Infiltrado na Klan não foi um filme que vi na Mostra exatamente, mas sim em uma sessão de imprensa. Coloco aqui, pois ele foi um dos grandes destaques, e além disso, um dos meus preferidos. Confesso que não conheço muito da carreira do Spike Lee, e ainda não vi vários de seus filmes clássicos. Gosto muito de A Última Noite (aquela cena do Edward Norton no espelho é uma das minhas preferidas do cinema!), então já tinha admiração pelo diretor.

Eu não poderia ter visto Infiltrado na Klan em momento mais apropriado, quer dizer, ele foi exibido num momento necessário em nosso país. Baseado em livro de mesmo nome de Ron Stallworth (lançado aqui no Brasil pela Editora Seoman), conta a história do primeiro detetive negro de Colorado Springs que conseguiu se infiltrar na Ku Kux Klan. Ele falava com eles por telefone, seu colega, um policial branco, ia em seu lugar nas reuniões.

Spike Lee faz diversos paralelos com os Estados Unidos de Trump, e se utiliza bastante do humor para criar um alívio diante de um tema tão tenso. Os atores principais, John David Washington (que é filho do Denzel Washington!) e Adam Driver estão incríveis nos papeis dos policiais. Topher Grace interpreta o líder da Klan, David Duke, aquele cidadão que andou elogiando nosso futuro presidente.

Li alguns comentários negativos sobre esse filme, que ele era muito direto, com críticas muito óbvias. Diante do mundo que vivemos, eu acho que certas coisas explícitas na cara das pessoas são bem necessárias. Spike Lee optou por encerrar o filme com declarações reais de Trump a respeito da Ku Kux Klan e usou imagens dos incidentes em Charlottesville. Temos essa tendência a esquecer nossa própria história, ainda mais uma tão recente, então nada melhor do que deixar as metáforas de lado e falar claramente sobre o que está acontecendo.

Ah, vai ter retrospectiva da carreira do Spike Lee no CCBB: em São Paulo, Rio de Janeiro e Distrito Federal.

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O Mau Exemplo de Cameron Post foi meu primeiro filme da Mostra em si. Eu tinha lido alguma coisa sobre ele, e o escolhi por ter sido dirigido por Desiree Akhavan (que atua em Creep 2). Eu não gostava nadinha da Chloë Moretz antes desse filme, sua atuação nunca me chamou a atenção, e aqui foi diferente. Ele se passa nos anos 90 e Cameron é uma garota lésbica (ou bissexual, isso não fica muito claro) que é enviada para um tipo de acampamento de “cura gay”.

Lá ela conhece Jane (interpretada por Sasha Lane, estrela de Docinho da América de Andrea Arnold) e Adam (Forrest Goodluck), com quem forma laços e encontra formas de aguentar a vida naquele local. O tema é bastante pesado, mas a diretora tratou com uma leveza ímpar, que torna o filme bastante agradável, uma espécie de sessão da tarde (aqui sem conotação negativa).

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Ingmar Bergman é meu diretor preferido (junto com Agnès Varda), então tento ver qualquer coisa relacionada a ele. O que dizer de um documentário sobre ele, chamado Procurando por Ingmar Bergman e dirigido por Margarethe von Trotta, uma das diretoras que mais admiro?

Mas antes de falar do documentário, preciso comentar sobre o curtinha que foi exibido antes: Vox Lipoma. Como sugere o título, a verruga de Bergman ganha voz e começa a aconselhá-lo a tratar melhor as mulheres com quem se relaciona. Bergman era um lixo em seus relacionamentos, isso é fato, aí uma Jane Magnusson nos presenteia com essa pequena pérola irônica. E ah, ele foi escrito pela Liv Strömquist, autora da HQ A Origem do Mundo.

Voltando ao documentário, é filme feito de fã para fã. Algumas partes achei um pouco chatas, alguns depoimentos não agregam muita coisa, mas foi lindo ver a Liv Ullmann e a Gunnel Lindblom já senhorinhas. Tem também um depoimento bastante pesado de Daniel Bergman, filho do homem, que deixa claro que ele não era lá uma boa pessoa. É bastante bizarro amar tanto a obra de uma pessoa, mesmo sabendo de sua vida pessoal.

Recomendo para quem ama a filmografia dele, para quem quer saber mais sobre ele, quer conhecer algumas das pessoas que conviveram com eles. A parte que eu mais gostei é quando a Trotta mostra uma lista de filmes preferidos do Bergman, no qual ele indica Os Anos de Chumbo. Trotta era a pessoa mais nova da lista, e a única mulher.

04

Gravei um podcast especial sobre a Mostra e deve ir ao ar em breve no Feito por Elas. E logo mais publico a segunda parte deste diário. 🙂

 

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