Onde cantam os pássaros

Eu tenho muitos problemas com capas bonitas demais. Claro que curto uma estética bacana, mas quando a capa é deslumbrante eu desconfio. Esse é exatamente o caso de Onde cantam os pássaros, da escritora anglo-australiana Evie Wyld, publicado em 2013. Aqui no Brasil ele foi lançado pela DarkSide Books.

Na contracapa há comparações deste livro com Nabokov e Ian McEwan, as quais considero descabidas. É muito complicado julgar a obra de uma jovem escritora comparando-a a escritores homens já consagrados. Para elogiar uma mulher, não é necessário dizer que ela escreve com x ou y autor, além de colocar muita responsabilidade nas costas da autora.

Onde cantam os pássaros possui um enredo um pouco confuso, a autora intercala o tempo presente com o passado. No tempo presente, temos Jake Whyte, uma mulher solitária que esconde um passado turbulento, enquanto cria ovelhas numa fazenda isolada. Porém, algumas dessas ovelhas começam a aparecer mortas e Whyte passa a viver desconfiada de todos que habitam o local.

Os capítulos sobre o passado dão poucas pistas do que realmente aconteceu com a protagonista. Ao avançar da narrativa somos levados a um passado ainda mais distante, para uma trama que envolve um grave acidente e uma história de sequestro, além de outras tantas peças que não se encaixam direito no decorrer do livro.

A narrativa de Evie Wyld é envolvente, o leitor pode se interessar pela narrativa, o problema que é que a autora não cumpre as expectativas que cria no começo do livro. Estamos nas últimas páginas e ainda há muito para ser explicado. O desfecho é mal resolvido e não condiz com o clima criado. São mais de 200 páginas de uma trama sendo preparada e um final não satisfatório.

A autora também se utiliza de muitos clichês, como as cicatrizes não explicadas na pele da protagonista e um comportamento agressivo e distante como mecanismo de defesa. Há presença de um estranho que faz a linha do homem-maltrapilho-porém-sedutor que passa a habitar a casa dela, sem um porquê coerente. São muitos elementos jogados na trama, que não se encaixam e não fazem sentido.

A edição brasileira também apresenta problemas de revisão, além de uma tradução truncada que pode dificultar a leitura. Além do problema já citado da capa, que vende uma imagem completamente diferente do que o livro apresenta.

Este é o segundo romance da autora e foi vencedor de dois prêmios: Encore Awards em 2013 e Miles Franklin Awards em 2014. É muito estranho o fato deste não ser o primeiro romance da autora, pois apresenta escorregadas típicas de um autor que ainda não possui completo domínio de sua escrita. Tive bons momentos na leitura, apesar de todos os problemas, mas o final me deu uma sensação de ter sido enganada.

Resenha originalmente publicada no site do Leia Mulheres.

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