Confissões do Crematório

Meu cadáver não se transformaria em um amontoado nojento de putrefação, mas uma fonte de vida, distribuindo moléculas e gerando novas criaturas. Seria o melhor reconhecimento de que eu era apenas uma engrenagem na roda do ecossistema, uma insignificância nos trabalhos majestosos do mundo natural. (pág. 197)

Conheci a americana Caitlin Doughty através desta matéria da The New Yorker chamada “Our Bodies, Ourselves”. Ela tem um canal no youtube chamado Ask a Mortician, que como sugere o nome, ela fala um pouco sobre como é ser uma agente funerária. Além disso, ela também é fundadora de um movimento chamado The Order of the Good Death, que visa mostrar que a morte é algo natural, não algo a ser temido.

Em 2014 ela lançou um livro chamado “Smoke gets in your eyes” (que também é o nome de uma música dos The Platters). A Darkside foi a responsável por publicar o livro aqui no Brasil com o título de “Confissões do Crematório”, com uma capa lindíssima e bastante luxuosa. Mas atrativos à parte, o livro é tão maravilhoso que se fosse lançado com uma capa de papelão simples, ele ainda seria um dos meus preferidos deste ano.

Em “Confissões do Crematório” Caitlin narra o dia a dia de trabalho em um crematório, mas ela não se prende apenas a isso. Ela nos conta um pouco de sua vida e de sua relação com a morte, o que a levou a esse tipo de trabalho. Há também reflexões a respeito da relação da cultura ocidental em relação à morte. Caitlin possui um vasto conhecimento sobre o assunto e ao longo do livro descreve outras visões da morte (como, por exemplo, o canibalismo dos Wari’, povo das florestas do oeste do Brasil) e comenta citações de diversos autores.

Uma das passagens mais impactantes do livro foi a que ela falou sobre a cremação de corpos de bebês e crianças. Assim que li o título do capítulo (“Bebês Demônios”) senti um aperto no peito, mas a leveza da escrita da autora me fez enxergar as coisas de forma mais racional. Outro capítulo importante fala sobre suicídio. Ela comenta uma fala de Cioran – “O suicídio é realmente o único direito que uma pessoa tem” – e descreve alguns dos casos que aconteceram durante o tempo em que trabalhou no crematório.

A autora também se atenta bastante à questão financeira que cerca a indústria funerária. Todo o processo da morte é bastante caro e demanda uma “higienização” que é relativamente moderna. A partir dos anos 30, começou a ocorrer o que ela chama de “medicalização” da morte. Os hospitais passaram a esconder o lado “feio” da morte. Trazendo isso para o contexto brasileiro, até pouco tempo atrás era comum que corpos fossem velados na própria casa (isso ainda é costume em algumas cidades do interior do Brasil). Hoje há um distanciamento da morte, é tudo feito da forma mais “limpa” possível.

Com essa higienização da morte, o processo se torna ainda mais doloroso para os familiares e amigos da pessoa que faleceu. Criamos diversos misticismo a respeito da morte, prolongamos a vida das pessoas e não damos condições ideias para as pessoas idosas. Ingmar Bergman já explorava o medo da velhice em seus filmes, e os filmes de terror tratam a morte como algo assustador (não os de fantasmas, mas sim os de zumbi, em que corpos putrefados voltam à vida para caçar os vivos).

Eu tinha expectativas muito altas com esse livro e, talvez, pela primeira vez na minha vida, elas foram mais do que supridas. Além de uma escrita muito acessível e de um bom humor muito bem encaixado, Caitlin Doughty me fez repensar minhas reflexões sobre a morte e vê-la de uma forma muito mais natural. Uma resenha é pouco para comentar todos os aspectos que esse livro trata, então eu recomendo a leitura a todos. Não é um livro de terror, mas sim uma ampla reflexão da naturalidade da morte.

Resenha originalmente publicada no site do Leia Mulheres.

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4 thoughts on “Confissões do Crematório

  1. No texto você diz: “Ingmar Bergman já explorava o medo da velhice em seus filmes”. Você citaria algum filme em específico?

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