I want to give the violent more violence

Conheci a Pilar Bu por causa do Leia Mulheres e a identificação foi imediata. Ela era mediadora e mantínhamos contato por redes sociais (aqui tem uma entrevista com ela). Até que finalmente em agosto nos conhecemos pessoalmente e consegui pegar seu livro de poemas, Ultraviolenta.

O título me chamou a atenção logo de cara. Quem lê meus textos aqui e no Espanador sabe que eu adoro fazer conexões entre as coisas que eu leio, vejo e escuto por aí. A minha maior motivação de ter criado esse blog foi justamente a liberdade de fazer minhas ligações e compartilhar um pouco das minhas ideias sobre as artes que eu consumo.

Como sempre digo, poesia é identificação. E no caso da Pilar, a identificação veio antes mesmo dos poemas. Durante a leitura do livro, pensei bastante nas músicas Violet do Hole e Feral Love da Chelsea Wolfe (sim, Chelsea está sempre presente na minha vida). E também, a velha e boa ultraviolência daquele filme que marcou a juventude de muitos de nós.

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Nos poemas de Pilar, a mulher é bruta, é feral, é agressiva. Essas características nos foram ensinadas como masculinas, logo boas para os homens e feias para as mulheres. De nós se espera delicadeza, pureza e serenidade. Pilar rompe com esses clichês e nos apresenta poemas com uma força descomunal.

ainda que a boca
não te dê o deleite
dos lábios
toma essa palavra
entorpecida de sangue
pica com as mãos
e come. (pág. 17)

A cor vermelha está presente em vários dos versos, seja no sangue, no batom vermelho, na carne, no ventre. Mais uma subversão de Pilar. O vermelho sempre esteve ligado ao perigoso, pecaminoso, proibido. Nesses versos ele representa a força da mulher, usa o estereótipo para fortalecer, para representar a ira e a dor.

e eu um tanto louca
um tanto tonta
escrevendo em vermelho
sua transcendência (pág. 18)

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Também há a figura animalesca, o leão, a serpente. Nisso penso muito na concepção toda do trabalho da Chelsea Wolfe, nas inspirações por trás das fotos, das letras que ela escreve. Creio que nossos gostos todos são moldados por nossas identificações, então mais do que normal ligar um artista a outro, mesmo que suas obras não pareçam ter semelhanças óbvias.

Fico aqui pensando no que as poetas acham das análises de seus versos, tanto aquelas mais acadêmicas que se prendem a rimas e métricas, quanto as minhas, que falam dos sentimentos que as palavras me despertaram. Aqui eu senti meu estômago revirar com as figuras que ela usa falando de unhas e de feridas. Senti aquela ânsia que sinto desde que me entendo por pessoa inadequada, ânsia de quem está cansada (como todas as mulheres em mim), precisa mudar situações, mas não tem forças.

pendurou
as vísceras na soleira
arranhou
as paredes
quebrou
unhas e ossos
perdeu
o medo
venceu
a odisseia do amor (pág. 40)

Ler esses poemas me trouxe a sensação de ouvir Violet pela primeira vez, com 11, 12 anos, sem saber direito o que a vida me reservava. Quase 20 anos depois me pego com os mesmos sentimentos, em outros versos. Acho que esse é o intuito da poesia no fim das contas, despertar sentimentos guardados, criar novos, mas causar algum tipo de impacto. E tenho a sorte de ler tantas mulheres que despertam em mim tantas ânsias.

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